Em noite de Eleições para o Parlamento Europeu os nossos líderes
políticos esforçaram-se ao máximo por ver os resultados entretanto apurados da
forma mais original possível. Frases como “derrota histórica da direita”, “vitória
clara do PS”, “fim da linha para o governo”, “abstenção elevada” ou “Marinho
Pinto” foram repetidas até à exaustão. No “day after” e, começando o meu texto
pelo final, questiono-me se fui eu que interpretei mal os resultados. Vi uma
vitória da CDU, uma vitória de Marinho Pinto (já lá vamos) e uma derrota generalizada
da Aliança Portugal, do Partido Socialista (sim, perderam, mas também já lá
vamos), do Bloco e da classe política.
Comecemos por algo que considerei grave e que, de certo modo, me fez
chegar ao dia 25 de Maio sem saber para onde canalizaria o meu voto: a
campanha. Tivemos a campanha mais insípida de que tenho memória. Várias vezes
tive que recordar a mim mesmo que teriamos umas eleições europeias. Em primeiro
lugar, até hoje nunca teria concebido a entrega de 16 listas para umas eleições
europeias, 16 listas que supostamente equivaleriam a 16 ideias diferentes sobre
a Europa. Surreal. Pior ainda quando, em 16 listas, em 16 campanhas não me
recordo de ter ouvido uma única ideia sobre a Europa, um único apontamento
sobre o projecto europeu. Que muito pouca gente tem ideia, hoje em dia, sobre o
que é a Europa e o que é o projecto europeu já eu sabia. Que 16 candidatos não
produzissem uma única intervenção com pés e cabeça sobre a Europa já me custava
a acreditar, até esta campanha. Falando apenas sobre os principais partidos, fosse
eu um jovem alienado e pensaria que Paulo Rangel estava em disputa eleitoral
contra José Sócrates; que Francisco Assis era um militante social democrata
muito preocupado com o apoio de Marcelo Rebelo de Sousa a Paulo Rangel; que os
partidos mais à esquerda estariam mais preocupados com a final da Liga dos
Campeões, tal a quantidade de vezes que pediam “cartões amarelos e vermelhos”;
que Marinho Pinto num país normal e que procurasse saber os programas
eleitorais dos candidatos teria o seu voto e talvez o da porteira; que
estávamos em eleições legislativas para o parlamento português. Não ouvi o que
esperava ouvir numa campanha para europeias, não ouvi uma única resposta a
questões que verdadeiramente interessam, por exemplo, qual acha que deve ser a
actuação da UE sobre o desemprego jovem, se a Europa necessita de mais ou menos
integração, se as instituições europeias necessitam de reforma, qual a linha de
actuação dos países mais pobres da UE para fazerem valer os seus interesses
perante as maiores potências, o que pretendem fazer para mitigar o perigo dos
extremismos, etc. A campanha, pelo contrário, centrou-se na governação
nacional. Infelizmente, quando os nossos políticos se capacitarem que o
verdadeiro poder está em Bruxelas e não em Lisboa será tarde demais.
A abstenção. Por princípio acho uma vergonha que um cidadão abdique do
seu direito de voto para ir à praia. Prefiro pensar que cumpri com o meu voto,
que é o exercer do meu direito de voto que me dá legitimidade para dizer que “isto
é tudo uma ladroagem e querem é comer à nossa custa”. Na minha opinião a
abstenção pode ter duas leituras paralelas. Primeiro, algo que já escrevi. Há
um cada vez maior distanciamento entre os políticos e o povo. A falta de
líderes carismáticos substituídos pelos produtos idênticos saídos das fábricas
partidárias, o discurso cada vez mais virado para dentro do partido, a “renovação
na continuidade” nas listas partidárias, onde as caras acabam por ser sempre as
mesmas e a falta de percepção de que não são as pessoas que têm que se adaptar
ao sistema, mas é o sistema que tem que se aproximar da população ajudam a
explicar este fenómeno. Por outro lado, recordo que nestas eleições tivemos
mais de 66% de abstenção em Portugal. Ouvi leituras diversas, que as pessoas
estão cansadas do mesmo (como referi anteriormente) e que foi um modo de
protesto. Digo que se dois terços dos portugueses ficaram em casa é porque
quiseram fazer da abstenção um protesto contra o actual governo e, também, um
protesto contra a oposição que não consideram capaz de tomar as rédeas do país.
Tanto que acham que nem vale a pena sair de casa para ir às urnas.
Passemos agora àquilo que gosto de chamar o efeito avestruz. Da esquerda
à direita todos reclamaram vitória e nenhum assumiu a derrota. Foi a pior
derrota da direita numas eleições do género? Foi. Perdeu o PSD e perdeu,
sobretudo, o CDS. Portas, inteligentemente, concorreu ao lado de Passos para
mitigar a derrota estrondosa que o seu partido sofreria. Arrisco a dizer que,
se o CDS concorre sozinho, era bem capaz de ter acabado ao lado do Bloco.
Por outro lado, acho inacreditável que o PS reclame vitória. À “derrota
histórica” da direita não correspondeu uma vitória do Partido Socialista.
Ficaram em primeiro, mas não venceram. Até diria que perderam. António José
Seguro bem se esforçou por reclamar vitória. Repetiu vezes sem conta que o PS
tinha ganho as eleições de forma clara, repetiu que era sinal que o governo
tinha chegado ao fim e, pior ainda, interpretou os resultados como a vontade do
povo português em ter um governo liderado pelo PS. Nem os militantes
socialistas acreditam nesta análise (quem viu a cara de Manuel Alegre durante o
discurso de Seguro sabe do que falo), nem o próprio Seguro acredita no que
disse. A constante repetição do chavão “vitória clara” soou como uma tentativa
de se convencer a si próprio do que estava a dizer. Se os votantes portugueses
castigaram a Aliança a verdade é que deixaram bem claro a Seguro que não contam
com ele para liderar o país. Com o descontentamento perante as medidas de
austeridade que grassa por Portugal, após três anos penosos de governo PSD/CDS,
se o melhor que Seguro consegue (após pedir que estas eleições fossem um ensaio
para as legislativas e após anunciar uma dezena de promessas mirabolantes) é
uma diferença de 3% então parece-me que a sua liderança está esgotada. Têm sido
vários os erros do PS durante estes três anos. E foram vários os erros nesta
campanha. Com este vitória mínima, Seguro acaba por dar mais força ao PSD/CDS
para as próximas legislativas. Passos está à vontade e viu-se isso ontem.
Portas deu-se ao luxo de sorrir. Os dois sabem que têm caminho aberto para
aquilo que seria impensável num outro período: a derrota do PS em 2015. Basta
manterem o rumo, concertarem com Merkel meia dúzia de medidas eleitoralistas e
um segundo mandato pode tornar-se real. No mínimo, contam com um Parlamento Socialista
em maioria relativa. Seguro está a dar de bandeja a derrota nas legislativas e
está a conseguir colar-se à ala Sócrates, com o erro da chamada do ex-primeiro
ministro a esta campanha, ele que tinha sido um crítico interno amorfo à
liderança de Sócrates. Por mais que gritem que sim, a verdade é que o resultado
é fraco, é uma derrota da liderança de Seguro e faz pensar o pior para 2015.
Da CDU não creio que valha a pena falar. Conseguiram um resultado que é
uma autêntica vitória e apenas geriram o jogo durante esta campanha. Falarei um
pouco do Bloco e do MPT.
O Bloco voltou a ser derrotado em toda a linha, como tem sido desde a saída
de Louçã. Urge ser repensado se se quiser manter como partido político. O Bloco
tem atraído diversos quadrantes, caíndo no erro de concorrer sozinho a eleições
e deixar que os PAN, MPT, etc roubem votos. Apetece dizer, em jeito de
brincadeira, que deviam telefonar ao Syriza a pedir umas lições.
Finalmente, o MPT, ou melhor, Marinho Pinto. Aqui tivemos a prova que
qualquer um de nós pode concorrer e ser eleito para o Parlamento Europeu, sem
apresentar uma ideia ou um programa eleitoral, se tivermos alguma notoriedade,
falarmos muito alto e mandarmos uns bitaites (muitos deles verdadeiros,
diga-se) sobre a classe política vigente. Marinho Pinto concorre com a
abstenção no local para onde foram canalizados muitos votos de protesto. Posso
estar enganado, mas prevejo que este seja um movimento em tudo idêntico ao “falecido”
PRD de Eanes, que apareceu numa altura bastante semelhante à actual.
Uma palavra ainda sobre a Europa. Como tinha escrito anteriormente, em
co-autoria com a Carolina, eram assustadores os indicadores que a extrema
direita nos dava de crescer nestas eleições. Confirmaram-se. A Frente Nacional
venceu em França, no Reino Unido venceu o UKIP. Resultados bastante bons foram
conseguidos pelos extremistas na Áustria, Dinamarca e na Hungria. É a prova de
que o projecto europeu precisa de ser repensado. Perante as dificuldades
actuais, os povos estão a fechar-se sobre si mesmos, novamente. Viram-se para
dentro, para o seu país e rejeitam a cooperação. Não era isto que os fundadores
da União Europeia certamente desejariam.