Quantos
de nós pensámos que, depois do flagelo da Segunda Guerra Mundial, a Humanidade
iria aprender com os seus erros e estas questões não teriam de voltar a ser
solucionadas?
O
enquadramento económico que hoje vivemos pôs duas palavras na ordem do dia da
União Europeia, desde 2007: “crise” e “austeridade”. A recessão económica
começa com a catastrófica situação financeira da Grécia, originada por anos
consecutivos de gestão deficitária e uma dívida soberana que colocou o país
numa condição de pré-bancarrota. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o
Banco Central Europeu (BCE) puseram imediatamente em prática um plano de
resgate. A partir deste momento, verifica-se que é cada vez maior o número de
países afectados, causando um “efeito dominó”. Primeiro ressentem-se os países
economicamente mais frágeis, sobretudo os do Sul da Europa, e, numa segunda
fase, a latitude de influência alarga-se também aos Estados cujas economias
apresentam uma maior robustez financeira. O efeito é uma condição lógica deste
fenómeno – se as políticas de austeridade inibem os países de importar, os mais
fortes não conseguem manter o volume de exportações que apresentavam até à
data.
As
consequências, a nível europeu, são conhecidas: as pessoas, um pouco por toda a
Europa, foram perdendo condições de vida, com os indicadores de pobreza e de
desemprego a aumentar de forma esmagadora. A população apenas a muito custo
consegue suportar os encargos domésticos, cumulativamente com os impostos, que
suportam a estrutura do Estado. Tudo isto piorou com a obsessão dos líderes
europeus pelas referidas políticas de austeridade que permitam controlar o
défice.
Esta
crise, aliada à cada vez maior falta de confiança do eleitorado europeu nos
políticos, tem conduzido a várias previsões quase apocalípticas do futuro do
projecto europeu. O resultado do descrédito nos representantes políticos tem
sido o alheamento da população face à política, com o aumento da abstenção para
níveis estratosféricos. Recorde-se, por exemplo, que a taxa de abstenção em
Portugal nas eleições europeias de 2009 rondou os 63%.
A
combinação destes factores gera uma generalizada instabilidade política,
enfatizada pelo acentuar dos protestos e manifestações por parte dos cidadãos.
Esta revolta da população contra as decisões políticas começam a ser
visivelmente aproveitadas pelos grupos e partidos de extremistas em vários
países da Europa.
Pode
portanto dizer-se que, numa espécie de regresso aos anos 30 do século XX, a
crise internacional tem sido um campo fértil para o crescimento de partidos de
extrema direita um pouco por toda a Europa. Estes partidos que, entre outras
linhas orientadoras, se assumem abertamente contra a União Europeia e contra a
imigração (como referiu Geert Wilders, líder do partido holandês de extrema
direita, o objectivo será “destruir o monstro de Bruxelas”), têm conseguido
captar simpatias.
Hitler,
no seu discurso de Março de 1933,
prometeu melhores condições de vida, criação de emprego e refere a notabilidade
e singularidade da “raça alemã”. Foi desta forma que conseguiu subir a escada
do poder na Alemanha, que vinha destroçada da Primeira Grande Guerra.
Actualmente,
a Alemanha é uma grande potência europeia, por isso a questão do emprego não
afecta a sua estrutura social em larga escala. Assim sendo, é necessário tratar
a questão do nacionalismo. Nos últimos anos, têm sido direccionadas críticas à
Chanceler Angela Merkel por parte de vários Estados-Membros da União Europeia,
em particular aqueles que têm mais dificuldades económicas. As críticas
prendem-se, fundamentalmente, com o facto de Merkel estar a governar não pela
Europa, mas apenas a zelar pelos interesses económicos alemães.
Para
fazer face a estes desenvolvimentos, muitos têm sido as oportunidades de
trabalho oferecidas aos europeus, nomeadamente portugueses, na Alemanha. No
entanto, nem este gigante escapou incólume às garras da recessão económica.
Como resultado disso, o povo alemão começou a reavivar uma chama xenófoba em
relação à vaga de imigrantes que vê entrar no seu país. O partido de
extrema-direita, Partido Nacional Democrata, agarra o tema da imigração como
pretexto para minar a sociedade com a disseminação da sua ideologia. A
população, já ressentida com a quebra (ainda que ligeira) da taxa de empregabilidade,
sente que os estrangeiros, que entram no seu país “a convite” do governo, lhe
estão a tirar as oportunidades que o mercado de trabalho ainda oferece.
Um
outro caso em que este fenómeno também se verifica é na Suíça, que se nos
apresenta como um exemplo vivo dos efeitos da subida da extrema-direita. Os
suíços pronunciaram-se em referendo, em passado mês de Fevereiro, sobre uma
"iniciativa popular" do partido União Democrática do Centro (UDC -
direita populista) para limitar a imigração e que defende o restabelecimento de
quotas de mão-de-obra estrangeira no país, que em parte foram suprimidas com os
acordos de livre circulação entre a União Europeia (UE) e a Suíça assinado em
2009. A iniciativa foi aprovada, com o apoio de 50,3% dos eleitores suíços.
Este resultado foi motivado pelo sucesso da mobilização da fracção do
eleitorado que está descontente ou indeciso face à evolução de acontecimentos
que se tem verificado, até mesmo na Suíça. Pela primeira vez em muitos anos a
taxa de desemprego subiu, o que causa uma grande destabilização na população
suíça. Esta medida tem, igualmente, o intuito de combater a entrada de
imigrantes no país que não têm o objectivo de encontrar trabalho, fazendo o
encargo da Segurança Social pesar mais sobre a população activa.
A
França é outro exemplo de um país que se tem deixado arrastar cada vez mais
para a extrema direita. O exemplo francês torna-se mais gravoso pelo facto da
Frente Nacional não ter crescido com a crise da primeira década deste século,
mas por aquele partido ter ganho força ainda na década de 80 do século passado.
Há cerca de trinta anos, Jean-Marie Le Pen apresentou-se na televisão como um
político de extrema direita.
Em 1984, o seu partido obteve 2.2 milhões de votos nas eleições europeias de
1984, tendo-se tornado o quarto partido mais votado em França, com 14.39% (mais
de 4 milhões de votos) nas presidenciais de 1988.
Quem perdia nessa altura com a subida da extrema direita em França era a
própria direita, sendo que o grande vencedor dessas eleições foi o carismático
líder socialista François Miterrand. Durante a década de 90, assistimos a um
certo estabilizar nas intenções de voto na Frente Nacional, com subida ténue de
poucos milhares de votos nas presidenciais de 1995 ganhas por Jacques Chirac.
A
grande surpresa chegou em 2002, quando Jean-Marie Le Pen arrebatou o segundo
lugar na primeira volta das presidenciais a Lionel Jospin do Partido Socialista
e disputou a segunda volta, perdendo para Chirac.
Os alarmes soaram em França com este volteface, mas pouco foi feito para conter
a subida da popularidade da Frente Nacional. Note-se, contudo, que de 1995 para
2002, a Frente Nacional subiu apenas 1.5% e de pouco mais de 4.5 milhões de
votos para 4.8 milhões. O que assistimos em 2002 foi uma verdadeira derrocada
do Partido Socialista francês com perda de mais de 7% dos votos. A
surpresa toma outros contornos se nos lembrarmos que Jospin não estava no
poder, pelo que um possível voto de protesto contra a esquerda terá ocorrido
pela fraca apresentação de soluções do partido. Em 2007, Jean-Marie Le Pen
perdeu 6%, sendo que a Frente Nacional percebeu que era chegada a hora de
apostar em alguém mais jovem e dinâmico, recaíndo a escolha na filha do seu
líder, Marine Le Pen. Esta assumiu, desde logo, uma subida estonteante chegando
quase aos 18% nas presidenciais de 2012, duplicando o número de votos de 2007.
Em Novembro de 2013, uma pré-sondagem revelou que um em cada quatro franceses
planeavam votar na Frente Nacional nas próximas eleições europeias. Mais alarmantes,
ainda, foram as vitórias na primeira volta das eleições locais em França por
parte da Frente Nacional, que levaram a uma substituição do governo francês
Em
França podemos observar um trajecto curioso nas intenções de voto. Quando toda
a Europa pensava nos movimentos fascistas como algo obsoleto de antes da 2ª
Guerra Mundial, Le Pen ganhava protagonismo. Em 2012, quando a crise
internacional ainda atingia a França, os franceses elegeram como maior força
política o Partido Socialista, sendo que Marine Le Pen acabou por retirar
muitos votos a Sarkozy. E por que razão é este um trajecto curioso? Porque na
Europa, temos observado uma crise da social democracia, ou seja, o contrário do
que ocorreu em França. No auge da crise bancária, os partidos de esquerda não
se conseguiram assumir como alternativa aos partidos de direita e ao
neo-liberalismo, como seria expectável. E os partidos mais à direita (incluíndo
os extremistas) têm tirado os seus votos à esquerda e não à direita. Podemos
justificar esta escolha no resto da Europa com três argumentos: primo, pelo falhanço da empatia dos
políticos com o seu eleitorado, que tem optado por seguir, como acontece em
tempo de crise, o líder carismático, vindo da vida activa, ao invés dos líderes
sociais democratas europeus que, cada vez mais, são um produto das fileiras do
partido sem qualquer experiência fora da política interna partidária; secundo, porque a mensagem da social
democracia europeia não passa para uma população desesperada pela crise, que
tende a deixar-se atrair pelas radicalizações de discurso; tertio, porque continuamos perante uma esquerda fragmentada, que
prossegue caminhos diferentes dentro de ideologias comuns. Este, aliás, é um
defeito histórico da esquerda europeia que teve o primeiro exemplo nos já
referidos anos 30 do século XX, quando a Europa deu preferência à união dos
movimentos fascistas em prejuízo dos fragmentos da própria esquerda comunista
que levou ao retrocesso da difusão do comunismo e ao aplicar do modelo apenas
no espaço de influência soviética.
A
situação actual em França recorda-nos os meados dos anos 30, quando a esquerda
chegou ao poder em plena fase de expansão dos regimes fascistas na Europa.
Todavia, uma coligação ineficiente, ampliada pela fragmentação dentro da
própria liderança conduziu a uma situação insustentável e à queda sucessiva de
governos.
Não
podemos confiar na irregularidade aparente da extrema direita na Europa que
conduz a alguns resultados díspares, com aumento de influência destes partidos
na Europa Central, mas decréscimo na Europa do Sul (Portugal, Espanha e Itália
têm um partido radical muito residual). A verdade é que quando menos esperamos
a extrema direita pode surgir em força, como na Ucrânia, em que o poder caiu na
rua através dos movimentos dos partidos de extrema direita do país. Ainda há
pouco tempo a sede do Partido Comunista ucraniano foi incendiada e o
Parlamento, dominado pela extrema direita, elevou-se num louvor a esta acção, o
que acaba por colocar no ridículo os políticos europeus que desfilaram ao lado
destas manifestações de Kiev, controladas ao início por elementos neo-nazis e
anti-semitas.
A
Europa assiste a uma subida da extrema direita, perante a crise de ideias da sua
social democracia. Tem de haver uma reacção da esquerda europeia perante este
cenário, de modo a criar o balanço necessário para que, no falhanço dos
democratas-cristãos, o poder não venha a cair na mão dos extremistas, como
ocorreu na Ucrânia. É nas mãos da social democracia, portanto, que se encontra
a possibilidade de conter estes sinais alarmantes que podem levar ao colapso da
União Europeia.
Neste
mundo tão globalizado, em que a multiculturalidade é a característica que
melhor o identifica, em que cada vez mais somos incitados ao respeito e
valorização da diferença, não podemos continuar a tolerar que a sociedade seja
minada por estas ideologias.
A
fase mais dura da crise está a acabar, de acordo com os indicadores de 2014.
Usemos essa motivação como contraciclo.
Por
último, é necessário olhar para a História e analisá-la. Foram pessoas como nós
que começaram a Guerra. Então, são pessoas como nós que podem hoje evitar uma
Guerra.
Carolina Gonçalves da Costa
Miguel Paim