Este ano a chamada “silly season”, que ocorre todos os anos entre Junho e
Setembro, tem tudo para ser mais animada e para nos poupar às notícias do
costume sobre o maior pão de ló do mundo ou sobre o abalroamento de viaturas
nas passagens de nível, esse sim o desporto de Verão favorito dos portugueses.
Tudo isto por causa da guerra dentro do Partido Socialista, que mais
tarde ou mais cedo iria acontecer. Como referi no texto anterior, na minha
opinião Seguro perdeu as eleições europeias apesar do PS ter sido o partido mais
votado. Após três anos de austeridade como nunca se viu e segundo o histórico
eleitoral do nosso país, esperar-se-ia uma vitória extremamente folgada do
principal partido da oposição. Nada disto aconteceu, a vantagem foi mínima
fazendo lembrar a expressão “vitória do pirro”.
Segue-se a disputa Seguro/Costa. Seguro sempre foi considerado um líder
socialista a prazo, por ser fraco e pouco carismático. A seu favor tem a
notável organização da sua primeira candidatura à liderança do partido, com a
colocação de caciques em lugares fundamentais da estrutura. Pelo contrário,
Costa sempre foi o menino bonito do PS, envolvo numa manta sebastianista que
funciona mais como um fardo do que como uma virtude. Esse sebastianismo tem
prejudicado as reais pretensões de Costa que prefere ser calculista e resguardar-se
do que avançar abertamente para a liderança do partido e para umas eleições
legislativas onde o PS tem tudo a perder.
Seguro tem-se refugiado na questão dos estatutos e de tentar “chutar”
umas eleições primárias para canto, passe-se a expressão. É uma estratégia
errada. Um verdadeiro líder tentaria chegar o mais reforçado possível às
eleições legislativas do próximo ano. Isso só se atingiria convocando
imediatamente um Congresso Nacional e enfrentando Costa de peito aberto, olhos
nos olhos. Deste modo, só consegue duas coisas: uma divisão cada vez maior do
partido, que em vez de reforçar fileiras face a 2015 está submerso numa guerra
fratricida; chegar a 2015 muito fragilizado. Com esta fuga para a frente, a
vitória pírrica das europeias irá transformar-se numa derrota eleitoral
humilhante e na cada vez maior perda de legitimidade do Partido Socialista como
um verdadeiro partido de governo. As pré-promessas, lunáticas, de Seguro antes
das Europeias não funcionaram. O cenário começa a tornar-se cada vez mais negro
para os seus lados.
Costa, por seu turno, com um confronto eleitoral imediato e com uma
vitória convincente continua uma trajectória política ascendente e pode
conseguir fazer com que o Partido Socialista chegue muito forte a 2015. Porquê
o “pode”? Por quatro razões principais. Em primeiro lugar, como referido acima,
precisa que o confronto se dê o mais rápido possível, de forma a limpar
fileiras e focar o partido em 2015. Isto em caso de vitória, claro. Depois,
porque ao contrário das outras alturas de crise, desde 2000, o principal
partido da oposição (neste caso o PS) terá que enfrentar um governo que, por
mais manifestações de desagrado que enfrente, chegará às eleições com um
mandato completo. Isso apenas reforça os partidos que estão no poder e serve de
“handicap” a quem concorra como oposição. Nestas alturas quem concorresse a
líder do partido estaria a concorrer ao mesmo tempo a líder do governo (veja-se
Sócrates em 2005). Em terceiro lugar, para ter um resultado expressivo, Costa
tem que se distanciar o máximo possível de Sócrates. Seguro, um opositor
interno ao ex-primeiro ministro não o conseguiu. Costa, mais alinhado com
Sócrates, tem que se esforçar ainda mais para se descolar do fantasma
pré-troika e afirmar-se como diferente do governo de então. Por último, neste
momento de crise e de distanciamento dos eleitores face aos políticos, Costa
terá que explicar muito bem o que pretende para o país, como pretende estimular
o crescimento e reduzir a despesa do Estado. É fácil dizer que se quer
crescimento, difícil é explicar como fazê-lo. São estes os desafios de António
Costa para se tornar num líder ideal para o PS neste momento.
A meu ver, o Partido Socialista terá tudo a ganhar com umas eleições
primárias. Seguro, em caso de vitória, reforçaria a sua legitimidade e teria
caminho aberto até 2015 para corrigir os erros das Europeias. Costa teria tempo
para corrigir esses mesmos erros (atribuindo-os à liderança anterior) e tempo
para se preparar para responder às questões que enunciei. A ver vamos, embora
esta demora não augure nada de bom para o PS.
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