segunda-feira, 30 de junho de 2014

Tensão no Partido Socialista: os erros de Seguro e os desafios de Costa



Este ano a chamada “silly season”, que ocorre todos os anos entre Junho e Setembro, tem tudo para ser mais animada e para nos poupar às notícias do costume sobre o maior pão de ló do mundo ou sobre o abalroamento de viaturas nas passagens de nível, esse sim o desporto de Verão favorito dos portugueses.
 
Tudo isto por causa da guerra dentro do Partido Socialista, que mais tarde ou mais cedo iria acontecer. Como referi no texto anterior, na minha opinião Seguro perdeu as eleições europeias apesar do PS ter sido o partido mais votado. Após três anos de austeridade como nunca se viu e segundo o histórico eleitoral do nosso país, esperar-se-ia uma vitória extremamente folgada do principal partido da oposição. Nada disto aconteceu, a vantagem foi mínima fazendo lembrar a expressão “vitória do pirro”.

Segue-se a disputa Seguro/Costa. Seguro sempre foi considerado um líder socialista a prazo, por ser fraco e pouco carismático. A seu favor tem a notável organização da sua primeira candidatura à liderança do partido, com a colocação de caciques em lugares fundamentais da estrutura. Pelo contrário, Costa sempre foi o menino bonito do PS, envolvo numa manta sebastianista que funciona mais como um fardo do que como uma virtude. Esse sebastianismo tem prejudicado as reais pretensões de Costa que prefere ser calculista e resguardar-se do que avançar abertamente para a liderança do partido e para umas eleições legislativas onde o PS tem tudo a perder.

Seguro tem-se refugiado na questão dos estatutos e de tentar “chutar” umas eleições primárias para canto, passe-se a expressão. É uma estratégia errada. Um verdadeiro líder tentaria chegar o mais reforçado possível às eleições legislativas do próximo ano. Isso só se atingiria convocando imediatamente um Congresso Nacional e enfrentando Costa de peito aberto, olhos nos olhos. Deste modo, só consegue duas coisas: uma divisão cada vez maior do partido, que em vez de reforçar fileiras face a 2015 está submerso numa guerra fratricida; chegar a 2015 muito fragilizado. Com esta fuga para a frente, a vitória pírrica das europeias irá transformar-se numa derrota eleitoral humilhante e na cada vez maior perda de legitimidade do Partido Socialista como um verdadeiro partido de governo. As pré-promessas, lunáticas, de Seguro antes das Europeias não funcionaram. O cenário começa a tornar-se cada vez mais negro para os seus lados.

Costa, por seu turno, com um confronto eleitoral imediato e com uma vitória convincente continua uma trajectória política ascendente e pode conseguir fazer com que o Partido Socialista chegue muito forte a 2015. Porquê o “pode”? Por quatro razões principais. Em primeiro lugar, como referido acima, precisa que o confronto se dê o mais rápido possível, de forma a limpar fileiras e focar o partido em 2015. Isto em caso de vitória, claro. Depois, porque ao contrário das outras alturas de crise, desde 2000, o principal partido da oposição (neste caso o PS) terá que enfrentar um governo que, por mais manifestações de desagrado que enfrente, chegará às eleições com um mandato completo. Isso apenas reforça os partidos que estão no poder e serve de “handicap” a quem concorra como oposição. Nestas alturas quem concorresse a líder do partido estaria a concorrer ao mesmo tempo a líder do governo (veja-se Sócrates em 2005). Em terceiro lugar, para ter um resultado expressivo, Costa tem que se distanciar o máximo possível de Sócrates. Seguro, um opositor interno ao ex-primeiro ministro não o conseguiu. Costa, mais alinhado com Sócrates, tem que se esforçar ainda mais para se descolar do fantasma pré-troika e afirmar-se como diferente do governo de então. Por último, neste momento de crise e de distanciamento dos eleitores face aos políticos, Costa terá que explicar muito bem o que pretende para o país, como pretende estimular o crescimento e reduzir a despesa do Estado. É fácil dizer que se quer crescimento, difícil é explicar como fazê-lo. São estes os desafios de António Costa para se tornar num líder ideal para o PS neste momento.

A meu ver, o Partido Socialista terá tudo a ganhar com umas eleições primárias. Seguro, em caso de vitória, reforçaria a sua legitimidade e teria caminho aberto até 2015 para corrigir os erros das Europeias. Costa teria tempo para corrigir esses mesmos erros (atribuindo-os à liderança anterior) e tempo para se preparar para responder às questões que enunciei. A ver vamos, embora esta demora não augure nada de bom para o PS.

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