segunda-feira, 30 de junho de 2014

Tensão no Partido Socialista: os erros de Seguro e os desafios de Costa



Este ano a chamada “silly season”, que ocorre todos os anos entre Junho e Setembro, tem tudo para ser mais animada e para nos poupar às notícias do costume sobre o maior pão de ló do mundo ou sobre o abalroamento de viaturas nas passagens de nível, esse sim o desporto de Verão favorito dos portugueses.
 
Tudo isto por causa da guerra dentro do Partido Socialista, que mais tarde ou mais cedo iria acontecer. Como referi no texto anterior, na minha opinião Seguro perdeu as eleições europeias apesar do PS ter sido o partido mais votado. Após três anos de austeridade como nunca se viu e segundo o histórico eleitoral do nosso país, esperar-se-ia uma vitória extremamente folgada do principal partido da oposição. Nada disto aconteceu, a vantagem foi mínima fazendo lembrar a expressão “vitória do pirro”.

Segue-se a disputa Seguro/Costa. Seguro sempre foi considerado um líder socialista a prazo, por ser fraco e pouco carismático. A seu favor tem a notável organização da sua primeira candidatura à liderança do partido, com a colocação de caciques em lugares fundamentais da estrutura. Pelo contrário, Costa sempre foi o menino bonito do PS, envolvo numa manta sebastianista que funciona mais como um fardo do que como uma virtude. Esse sebastianismo tem prejudicado as reais pretensões de Costa que prefere ser calculista e resguardar-se do que avançar abertamente para a liderança do partido e para umas eleições legislativas onde o PS tem tudo a perder.

Seguro tem-se refugiado na questão dos estatutos e de tentar “chutar” umas eleições primárias para canto, passe-se a expressão. É uma estratégia errada. Um verdadeiro líder tentaria chegar o mais reforçado possível às eleições legislativas do próximo ano. Isso só se atingiria convocando imediatamente um Congresso Nacional e enfrentando Costa de peito aberto, olhos nos olhos. Deste modo, só consegue duas coisas: uma divisão cada vez maior do partido, que em vez de reforçar fileiras face a 2015 está submerso numa guerra fratricida; chegar a 2015 muito fragilizado. Com esta fuga para a frente, a vitória pírrica das europeias irá transformar-se numa derrota eleitoral humilhante e na cada vez maior perda de legitimidade do Partido Socialista como um verdadeiro partido de governo. As pré-promessas, lunáticas, de Seguro antes das Europeias não funcionaram. O cenário começa a tornar-se cada vez mais negro para os seus lados.

Costa, por seu turno, com um confronto eleitoral imediato e com uma vitória convincente continua uma trajectória política ascendente e pode conseguir fazer com que o Partido Socialista chegue muito forte a 2015. Porquê o “pode”? Por quatro razões principais. Em primeiro lugar, como referido acima, precisa que o confronto se dê o mais rápido possível, de forma a limpar fileiras e focar o partido em 2015. Isto em caso de vitória, claro. Depois, porque ao contrário das outras alturas de crise, desde 2000, o principal partido da oposição (neste caso o PS) terá que enfrentar um governo que, por mais manifestações de desagrado que enfrente, chegará às eleições com um mandato completo. Isso apenas reforça os partidos que estão no poder e serve de “handicap” a quem concorra como oposição. Nestas alturas quem concorresse a líder do partido estaria a concorrer ao mesmo tempo a líder do governo (veja-se Sócrates em 2005). Em terceiro lugar, para ter um resultado expressivo, Costa tem que se distanciar o máximo possível de Sócrates. Seguro, um opositor interno ao ex-primeiro ministro não o conseguiu. Costa, mais alinhado com Sócrates, tem que se esforçar ainda mais para se descolar do fantasma pré-troika e afirmar-se como diferente do governo de então. Por último, neste momento de crise e de distanciamento dos eleitores face aos políticos, Costa terá que explicar muito bem o que pretende para o país, como pretende estimular o crescimento e reduzir a despesa do Estado. É fácil dizer que se quer crescimento, difícil é explicar como fazê-lo. São estes os desafios de António Costa para se tornar num líder ideal para o PS neste momento.

A meu ver, o Partido Socialista terá tudo a ganhar com umas eleições primárias. Seguro, em caso de vitória, reforçaria a sua legitimidade e teria caminho aberto até 2015 para corrigir os erros das Europeias. Costa teria tempo para corrigir esses mesmos erros (atribuindo-os à liderança anterior) e tempo para se preparar para responder às questões que enunciei. A ver vamos, embora esta demora não augure nada de bom para o PS.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

As Europeias que não o foram ou o "Efeito Avestruz"

Em noite de Eleições para o Parlamento Europeu os nossos líderes políticos esforçaram-se ao máximo por ver os resultados entretanto apurados da forma mais original possível. Frases como “derrota histórica da direita”, “vitória clara do PS”, “fim da linha para o governo”, “abstenção elevada” ou “Marinho Pinto” foram repetidas até à exaustão. No “day after” e, começando o meu texto pelo final, questiono-me se fui eu que interpretei mal os resultados. Vi uma vitória da CDU, uma vitória de Marinho Pinto (já lá vamos) e uma derrota generalizada da Aliança Portugal, do Partido Socialista (sim, perderam, mas também já lá vamos), do Bloco e da classe política.

Comecemos por algo que considerei grave e que, de certo modo, me fez chegar ao dia 25 de Maio sem saber para onde canalizaria o meu voto: a campanha. Tivemos a campanha mais insípida de que tenho memória. Várias vezes tive que recordar a mim mesmo que teriamos umas eleições europeias. Em primeiro lugar, até hoje nunca teria concebido a entrega de 16 listas para umas eleições europeias, 16 listas que supostamente equivaleriam a 16 ideias diferentes sobre a Europa. Surreal. Pior ainda quando, em 16 listas, em 16 campanhas não me recordo de ter ouvido uma única ideia sobre a Europa, um único apontamento sobre o projecto europeu. Que muito pouca gente tem ideia, hoje em dia, sobre o que é a Europa e o que é o projecto europeu já eu sabia. Que 16 candidatos não produzissem uma única intervenção com pés e cabeça sobre a Europa já me custava a acreditar, até esta campanha. Falando apenas sobre os principais partidos, fosse eu um jovem alienado e pensaria que Paulo Rangel estava em disputa eleitoral contra José Sócrates; que Francisco Assis era um militante social democrata muito preocupado com o apoio de Marcelo Rebelo de Sousa a Paulo Rangel; que os partidos mais à esquerda estariam mais preocupados com a final da Liga dos Campeões, tal a quantidade de vezes que pediam “cartões amarelos e vermelhos”; que Marinho Pinto num país normal e que procurasse saber os programas eleitorais dos candidatos teria o seu voto e talvez o da porteira; que estávamos em eleições legislativas para o parlamento português. Não ouvi o que esperava ouvir numa campanha para europeias, não ouvi uma única resposta a questões que verdadeiramente interessam, por exemplo, qual acha que deve ser a actuação da UE sobre o desemprego jovem, se a Europa necessita de mais ou menos integração, se as instituições europeias necessitam de reforma, qual a linha de actuação dos países mais pobres da UE para fazerem valer os seus interesses perante as maiores potências, o que pretendem fazer para mitigar o perigo dos extremismos, etc. A campanha, pelo contrário, centrou-se na governação nacional. Infelizmente, quando os nossos políticos se capacitarem que o verdadeiro poder está em Bruxelas e não em Lisboa será tarde demais.

A abstenção. Por princípio acho uma vergonha que um cidadão abdique do seu direito de voto para ir à praia. Prefiro pensar que cumpri com o meu voto, que é o exercer do meu direito de voto que me dá legitimidade para dizer que “isto é tudo uma ladroagem e querem é comer à nossa custa”. Na minha opinião a abstenção pode ter duas leituras paralelas. Primeiro, algo que já escrevi. Há um cada vez maior distanciamento entre os políticos e o povo. A falta de líderes carismáticos substituídos pelos produtos idênticos saídos das fábricas partidárias, o discurso cada vez mais virado para dentro do partido, a “renovação na continuidade” nas listas partidárias, onde as caras acabam por ser sempre as mesmas e a falta de percepção de que não são as pessoas que têm que se adaptar ao sistema, mas é o sistema que tem que se aproximar da população ajudam a explicar este fenómeno. Por outro lado, recordo que nestas eleições tivemos mais de 66% de abstenção em Portugal. Ouvi leituras diversas, que as pessoas estão cansadas do mesmo (como referi anteriormente) e que foi um modo de protesto. Digo que se dois terços dos portugueses ficaram em casa é porque quiseram fazer da abstenção um protesto contra o actual governo e, também, um protesto contra a oposição que não consideram capaz de tomar as rédeas do país. Tanto que acham que nem vale a pena sair de casa para ir às urnas.

Passemos agora àquilo que gosto de chamar o efeito avestruz. Da esquerda à direita todos reclamaram vitória e nenhum assumiu a derrota. Foi a pior derrota da direita numas eleições do género? Foi. Perdeu o PSD e perdeu, sobretudo, o CDS. Portas, inteligentemente, concorreu ao lado de Passos para mitigar a derrota estrondosa que o seu partido sofreria. Arrisco a dizer que, se o CDS concorre sozinho, era bem capaz de ter acabado ao lado do Bloco.

Por outro lado, acho inacreditável que o PS reclame vitória. À “derrota histórica” da direita não correspondeu uma vitória do Partido Socialista. Ficaram em primeiro, mas não venceram. Até diria que perderam. António José Seguro bem se esforçou por reclamar vitória. Repetiu vezes sem conta que o PS tinha ganho as eleições de forma clara, repetiu que era sinal que o governo tinha chegado ao fim e, pior ainda, interpretou os resultados como a vontade do povo português em ter um governo liderado pelo PS. Nem os militantes socialistas acreditam nesta análise (quem viu a cara de Manuel Alegre durante o discurso de Seguro sabe do que falo), nem o próprio Seguro acredita no que disse. A constante repetição do chavão “vitória clara” soou como uma tentativa de se convencer a si próprio do que estava a dizer. Se os votantes portugueses castigaram a Aliança a verdade é que deixaram bem claro a Seguro que não contam com ele para liderar o país. Com o descontentamento perante as medidas de austeridade que grassa por Portugal, após três anos penosos de governo PSD/CDS, se o melhor que Seguro consegue (após pedir que estas eleições fossem um ensaio para as legislativas e após anunciar uma dezena de promessas mirabolantes) é uma diferença de 3% então parece-me que a sua liderança está esgotada. Têm sido vários os erros do PS durante estes três anos. E foram vários os erros nesta campanha. Com este vitória mínima, Seguro acaba por dar mais força ao PSD/CDS para as próximas legislativas. Passos está à vontade e viu-se isso ontem. Portas deu-se ao luxo de sorrir. Os dois sabem que têm caminho aberto para aquilo que seria impensável num outro período: a derrota do PS em 2015. Basta manterem o rumo, concertarem com Merkel meia dúzia de medidas eleitoralistas e um segundo mandato pode tornar-se real. No mínimo, contam com um Parlamento Socialista em maioria relativa. Seguro está a dar de bandeja a derrota nas legislativas e está a conseguir colar-se à ala Sócrates, com o erro da chamada do ex-primeiro ministro a esta campanha, ele que tinha sido um crítico interno amorfo à liderança de Sócrates. Por mais que gritem que sim, a verdade é que o resultado é fraco, é uma derrota da liderança de Seguro e faz pensar o pior para 2015.

Da CDU não creio que valha a pena falar. Conseguiram um resultado que é uma autêntica vitória e apenas geriram o jogo durante esta campanha. Falarei um pouco do Bloco e do MPT.

O Bloco voltou a ser derrotado em toda a linha, como tem sido desde a saída de Louçã. Urge ser repensado se se quiser manter como partido político. O Bloco tem atraído diversos quadrantes, caíndo no erro de concorrer sozinho a eleições e deixar que os PAN, MPT, etc roubem votos. Apetece dizer, em jeito de brincadeira, que deviam telefonar ao Syriza a pedir umas lições.

Finalmente, o MPT, ou melhor, Marinho Pinto. Aqui tivemos a prova que qualquer um de nós pode concorrer e ser eleito para o Parlamento Europeu, sem apresentar uma ideia ou um programa eleitoral, se tivermos alguma notoriedade, falarmos muito alto e mandarmos uns bitaites (muitos deles verdadeiros, diga-se) sobre a classe política vigente. Marinho Pinto concorre com a abstenção no local para onde foram canalizados muitos votos de protesto. Posso estar enganado, mas prevejo que este seja um movimento em tudo idêntico ao “falecido” PRD de Eanes, que apareceu numa altura bastante semelhante à actual.

Uma palavra ainda sobre a Europa. Como tinha escrito anteriormente, em co-autoria com a Carolina, eram assustadores os indicadores que a extrema direita nos dava de crescer nestas eleições. Confirmaram-se. A Frente Nacional venceu em França, no Reino Unido venceu o UKIP. Resultados bastante bons foram conseguidos pelos extremistas na Áustria, Dinamarca e na Hungria. É a prova de que o projecto europeu precisa de ser repensado. Perante as dificuldades actuais, os povos estão a fechar-se sobre si mesmos, novamente. Viram-se para dentro, para o seu país e rejeitam a cooperação. Não era isto que os fundadores da União Europeia certamente desejariam.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A subida da extrema direita na Europa



Quantos de nós pensámos que, depois do flagelo da Segunda Guerra Mundial, a Humanidade iria aprender com os seus erros e estas questões não teriam de voltar a ser solucionadas?
O enquadramento económico que hoje vivemos pôs duas palavras na ordem do dia da União Europeia, desde 2007: “crise” e “austeridade”. A recessão económica começa com a catastrófica situação financeira da Grécia, originada por anos consecutivos de gestão deficitária e uma dívida soberana que colocou o país numa condição de pré-bancarrota. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Central Europeu (BCE) puseram imediatamente em prática um plano de resgate. A partir deste momento, verifica-se que é cada vez maior o número de países afectados, causando um “efeito dominó”. Primeiro ressentem-se os países economicamente mais frágeis, sobretudo os do Sul da Europa, e, numa segunda fase, a latitude de influência alarga-se também aos Estados cujas economias apresentam uma maior robustez financeira. O efeito é uma condição lógica deste fenómeno – se as políticas de austeridade inibem os países de importar, os mais fortes não conseguem manter o volume de exportações que apresentavam até à data.
As consequências, a nível europeu, são conhecidas: as pessoas, um pouco por toda a Europa, foram perdendo condições de vida, com os indicadores de pobreza e de desemprego a aumentar de forma esmagadora. A população apenas a muito custo consegue suportar os encargos domésticos, cumulativamente com os impostos, que suportam a estrutura do Estado. Tudo isto piorou com a obsessão dos líderes europeus pelas referidas políticas de austeridade que permitam controlar o défice.
Esta crise, aliada à cada vez maior falta de confiança do eleitorado europeu nos políticos, tem conduzido a várias previsões quase apocalípticas do futuro do projecto europeu. O resultado do descrédito nos representantes políticos tem sido o alheamento da população face à política, com o aumento da abstenção para níveis estratosféricos. Recorde-se, por exemplo, que a taxa de abstenção em Portugal nas eleições europeias de 2009 rondou os 63%.
A combinação destes factores gera uma generalizada instabilidade política, enfatizada pelo acentuar dos protestos e manifestações por parte dos cidadãos. Esta revolta da população contra as decisões políticas começam a ser visivelmente aproveitadas pelos grupos e partidos de extremistas em vários países da Europa.
Pode portanto dizer-se que, numa espécie de regresso aos anos 30 do século XX, a crise internacional tem sido um campo fértil para o crescimento de partidos de extrema direita um pouco por toda a Europa. Estes partidos que, entre outras linhas orientadoras, se assumem abertamente contra a União Europeia e contra a imigração (como referiu Geert Wilders, líder do partido holandês de extrema direita, o objectivo será “destruir o monstro de Bruxelas”), têm conseguido captar simpatias.
Hitler, no seu discurso de Março de 1933, prometeu melhores condições de vida, criação de emprego e refere a notabilidade e singularidade da “raça alemã”. Foi desta forma que conseguiu subir a escada do poder na Alemanha, que vinha destroçada da Primeira Grande Guerra.
Actualmente, a Alemanha é uma grande potência europeia, por isso a questão do emprego não afecta a sua estrutura social em larga escala. Assim sendo, é necessário tratar a questão do nacionalismo. Nos últimos anos, têm sido direccionadas críticas à Chanceler Angela Merkel por parte de vários Estados-Membros da União Europeia, em particular aqueles que têm mais dificuldades económicas. As críticas prendem-se, fundamentalmente, com o facto de Merkel estar a governar não pela Europa, mas apenas a zelar pelos interesses económicos alemães.
Para fazer face a estes desenvolvimentos, muitos têm sido as oportunidades de trabalho oferecidas aos europeus, nomeadamente portugueses, na Alemanha. No entanto, nem este gigante escapou incólume às garras da recessão económica. Como resultado disso, o povo alemão começou a reavivar uma chama xenófoba em relação à vaga de imigrantes que vê entrar no seu país. O partido de extrema-direita, Partido Nacional Democrata, agarra o tema da imigração como pretexto para minar a sociedade com a disseminação da sua ideologia. A população, já ressentida com a quebra (ainda que ligeira) da taxa de empregabilidade, sente que os estrangeiros, que entram no seu país “a convite” do governo, lhe estão a tirar as oportunidades que o mercado de trabalho ainda oferece.
Um outro caso em que este fenómeno também se verifica é na Suíça, que se nos apresenta como um exemplo vivo dos efeitos da subida da extrema-direita. Os suíços pronunciaram-se em referendo, em passado mês de Fevereiro, sobre uma "iniciativa popular" do partido União Democrática do Centro (UDC - direita populista) para limitar a imigração e que defende o restabelecimento de quotas de mão-de-obra estrangeira no país, que em parte foram suprimidas com os acordos de livre circulação entre a União Europeia (UE) e a Suíça assinado em 2009. A iniciativa foi aprovada, com o apoio de 50,3% dos eleitores suíços. Este resultado foi motivado pelo sucesso da mobilização da fracção do eleitorado que está descontente ou indeciso face à evolução de acontecimentos que se tem verificado, até mesmo na Suíça. Pela primeira vez em muitos anos a taxa de desemprego subiu, o que causa uma grande destabilização na população suíça. Esta medida tem, igualmente, o intuito de combater a entrada de imigrantes no país que não têm o objectivo de encontrar trabalho, fazendo o encargo da Segurança Social pesar mais sobre a população activa.
A França é outro exemplo de um país que se tem deixado arrastar cada vez mais para a extrema direita. O exemplo francês torna-se mais gravoso pelo facto da Frente Nacional não ter crescido com a crise da primeira década deste século, mas por aquele partido ter ganho força ainda na década de 80 do século passado. Há cerca de trinta anos, Jean-Marie Le Pen apresentou-se na televisão como um político de extrema direita. Em 1984, o seu partido obteve 2.2 milhões de votos nas eleições europeias de 1984, tendo-se tornado o quarto partido mais votado em França, com 14.39% (mais de 4 milhões de votos) nas presidenciais de 1988. Quem perdia nessa altura com a subida da extrema direita em França era a própria direita, sendo que o grande vencedor dessas eleições foi o carismático líder socialista François Miterrand. Durante a década de 90, assistimos a um certo estabilizar nas intenções de voto na Frente Nacional, com subida ténue de poucos milhares de votos nas presidenciais de 1995 ganhas por Jacques Chirac.
A grande surpresa chegou em 2002, quando Jean-Marie Le Pen arrebatou o segundo lugar na primeira volta das presidenciais a Lionel Jospin do Partido Socialista e disputou a segunda volta, perdendo para Chirac. Os alarmes soaram em França com este volteface, mas pouco foi feito para conter a subida da popularidade da Frente Nacional. Note-se, contudo, que de 1995 para 2002, a Frente Nacional subiu apenas 1.5% e de pouco mais de 4.5 milhões de votos para 4.8 milhões. O que assistimos em 2002 foi uma verdadeira derrocada do Partido Socialista francês com perda de mais de 7% dos votos. A surpresa toma outros contornos se nos lembrarmos que Jospin não estava no poder, pelo que um possível voto de protesto contra a esquerda terá ocorrido pela fraca apresentação de soluções do partido. Em 2007, Jean-Marie Le Pen perdeu 6%, sendo que a Frente Nacional percebeu que era chegada a hora de apostar em alguém mais jovem e dinâmico, recaíndo a escolha na filha do seu líder, Marine Le Pen. Esta assumiu, desde logo, uma subida estonteante chegando quase aos 18% nas presidenciais de 2012, duplicando o número de votos de 2007. Em Novembro de 2013, uma pré-sondagem revelou que um em cada quatro franceses planeavam votar na Frente Nacional nas próximas eleições europeias. Mais alarmantes, ainda, foram as vitórias na primeira volta das eleições locais em França por parte da Frente Nacional, que levaram a uma substituição do governo francês.
Em França podemos observar um trajecto curioso nas intenções de voto. Quando toda a Europa pensava nos movimentos fascistas como algo obsoleto de antes da 2ª Guerra Mundial, Le Pen ganhava protagonismo. Em 2012, quando a crise internacional ainda atingia a França, os franceses elegeram como maior força política o Partido Socialista, sendo que Marine Le Pen acabou por retirar muitos votos a Sarkozy. E por que razão é este um trajecto curioso? Porque na Europa, temos observado uma crise da social democracia, ou seja, o contrário do que ocorreu em França. No auge da crise bancária, os partidos de esquerda não se conseguiram assumir como alternativa aos partidos de direita e ao neo-liberalismo, como seria expectável. E os partidos mais à direita (incluíndo os extremistas) têm tirado os seus votos à esquerda e não à direita. Podemos justificar esta escolha no resto da Europa com três argumentos: primo, pelo falhanço da empatia dos políticos com o seu eleitorado, que tem optado por seguir, como acontece em tempo de crise, o líder carismático, vindo da vida activa, ao invés dos líderes sociais democratas europeus que, cada vez mais, são um produto das fileiras do partido sem qualquer experiência fora da política interna partidária; secundo, porque a mensagem da social democracia europeia não passa para uma população desesperada pela crise, que tende a deixar-se atrair pelas radicalizações de discurso; tertio, porque continuamos perante uma esquerda fragmentada, que prossegue caminhos diferentes dentro de ideologias comuns. Este, aliás, é um defeito histórico da esquerda europeia que teve o primeiro exemplo nos já referidos anos 30 do século XX, quando a Europa deu preferência à união dos movimentos fascistas em prejuízo dos fragmentos da própria esquerda comunista que levou ao retrocesso da difusão do comunismo e ao aplicar do modelo apenas no espaço de influência soviética.
A situação actual em França recorda-nos os meados dos anos 30, quando a esquerda chegou ao poder em plena fase de expansão dos regimes fascistas na Europa. Todavia, uma coligação ineficiente, ampliada pela fragmentação dentro da própria liderança conduziu a uma situação insustentável e à queda sucessiva de governos.
Não podemos confiar na irregularidade aparente da extrema direita na Europa que conduz a alguns resultados díspares, com aumento de influência destes partidos na Europa Central, mas decréscimo na Europa do Sul (Portugal, Espanha e Itália têm um partido radical muito residual). A verdade é que quando menos esperamos a extrema direita pode surgir em força, como na Ucrânia, em que o poder caiu na rua através dos movimentos dos partidos de extrema direita do país. Ainda há pouco tempo a sede do Partido Comunista ucraniano foi incendiada e o Parlamento, dominado pela extrema direita, elevou-se num louvor a esta acção, o que acaba por colocar no ridículo os políticos europeus que desfilaram ao lado destas manifestações de Kiev, controladas ao início por elementos neo-nazis e anti-semitas.
A Europa assiste a uma subida da extrema direita, perante a crise de ideias da sua social democracia. Tem de haver uma reacção da esquerda europeia perante este cenário, de modo a criar o balanço necessário para que, no falhanço dos democratas-cristãos, o poder não venha a cair na mão dos extremistas, como ocorreu na Ucrânia. É nas mãos da social democracia, portanto, que se encontra a possibilidade de conter estes sinais alarmantes que podem levar ao colapso da União Europeia.
Neste mundo tão globalizado, em que a multiculturalidade é a característica que melhor o identifica, em que cada vez mais somos incitados ao respeito e valorização da diferença, não podemos continuar a tolerar que a sociedade seja minada por estas ideologias.
A fase mais dura da crise está a acabar, de acordo com os indicadores de 2014. Usemos essa motivação como contraciclo.
       Por último, é necessário olhar para a História e analisá-la. Foram pessoas como nós que começaram a Guerra. Então, são pessoas como nós que podem hoje evitar uma Guerra.

Carolina Gonçalves da Costa
Miguel Paim